Fortaleza

Tome sua última porção de ar; tenha certeza de que esta será a última. Enquanto eu estiver lá, você respirará por meus pulsos e eles conversarão com você sobre o tempo em Campinas. Como estão as pessoas na praça de alimentação? Já sorriu para elas hoje? Acho que elas não enxergam esse seu músculo dilatar ao ver um rosto semelhante ao meu e depois contrair ao constatar outro engano.
O que mais seríamos senão um engano? Tropecei numa pétala e deitei-me na rocha para dormir. Vamos fingir que meu sorriso é criado por mim mesmo; que o mundo não fê-lo do jeito como o convinha. De meu, só a covinha na bochecha e a cova após meu gozo final. Ficarei para sempre raiz e meus netos serão petróleo de zumbis pós-apocalípticos.
Eu nasci do Pai, e, orfã de mãe, brotei-me uma imagem femenina que além de espelho não era nada.
O que digo? O que estou escrevendo?

PS: Está tudo bem, isso é só um texto cru. Que deixarei cru.

4 escafandrinhos disseram algo:

Jeniffer Yara disse...

Um texto cru que expressa o que você sente/vive/pensa ;) Muito bom.

Beijos

larissa disse...

Uma surra de palavras, que dizem muito mais do que eu posso imaginar. Talvez até você. É o sentir. Esvaziar-se. Eu gostei :)

Um beijo, Letícia.

Lillie disse...

Ver você em todos os rostos, ou melhor, pensar ver você em todos os rostos e se decepcionar ao constatar que não era verdade. Mas esse cru às vezes tem que sair, tem que ser dito e desabafado pra não ir se aglomerando aos pouquinhos dentro da gente, o que é bem pior.

Minne disse...

Maravilhoso esse teu jeito de escrever, de desabafar e talvez até melhor com isso. Que essas palavras tão cruas vieram feito pancadas, uma sobre a outra, mas se elas não fossem despejadas assim talvez pudessem te machucar. Adorei, Letícia.