Promessa

------------x Carta para Bloínques. Como no último conto, há uma música para acompanhar no final da postegm. Opcional e complementar, claro.


Apartamento do Leblon, 21 de Agosto de 2003.

Kamila,

As mãos que agora vos escrevem são trêmulas de culpa. Movem-se pelo impulso tirado do que restou do espírito, surrado pela vida, espancado pelo amor. Por meus olhos vejo indagações passando. Isso é mesmo necessário? Minha pele cansada se debruça sobre a mesa e, por mais que a puxe para a postura correta, ela se desmancha novamente.
Estou sóbrio, porém, e arranquei minha última poesia não sei de onde para escrever-lhe. Lembra-se do fim de semana em Copacabana? O morrer do Sol se esparramava em rosa e vermelho pelo céu, os casais riam de alegria mansa e as ondas engoliam o que restava do calor da manhã. Você me perguntou do que eu viveria se tivesse que viver para sempre. Disse-lhe que viveria de você, da sua memória.
Você sorriu, mas vi a histeria fétida sair por suas mãos nervosas, se emaranhando num nó infinito. Agora reconheço que minhas palavras não poderão ser colocadas em vivência. O sangue que corre aqui dentro é gélido, a respiração é pausada, os olhos se fecham com facilidade.
É decorrente dessa facilidade que estou escrevendo-lhe. Se eles se fecharem definitivamente, partirei triste por não ter dito adeus. Queria me desculpar por não ter te dado filhos. Agora que a vontade veio, já estamos beirando a morte. É essa corda bamba que me dá nos nervos, porque o vai-vêm não me mata nem me cura.
Mas devo finalizar-me ligeiro. Desculpe-me pela acidez que me tomou nos últimos anos. As dores me mudaram e seu sorriso já era quase uma memória. Não vou viver para sempre, evidentemente, porém, ainda viverei de você, como prometi. Para onde vou quando sair de minha carne? Não sei, mas parte de você continuará em mim.
Porque somos aquele casal em Copacabana, o motivo do pintor criar a tela num poente colorido de vermelho e rosa. A culpa é pesada demais, não consigo aguentar a ideia de que lhe deixarei sozinha nessa casa. Perdão, perdão! Sinto que a mão treme ainda mais quando penso na sua solidão.
Se não for pedir demais, você poderia ao menos tentar cumprir sua parte da promessa? Você disse que, desde que estivesse em mim, eu estaria vivo em você. Pois então, fique com essa parte do espírito que ainda me resta, para que eu não me perca quando adormecer. Você nunca vai significar algo mais grandioso para qualquer pessoa que não seja eu.


Com todo amor que o seu velho pode descrever,
Paolo.


Download aqui

14 escafandrinhos disseram algo:

Camila. disse...

Adorei o texto, boa sorte no BLQ! Ah, sobre o seu comentário no meu blog: Também tenho vontade de fugir de tudo as vezes. Acho que é normal.

XX

Cris . disse...

Nossa que carta, que forte,
eu fico ate sem palavras diante de um texto tão bom, tão profundo e melancolico como esse .

ps¹ - tem um desafio para voce em meu blog;
ps² - Kellylaving@hotmail.com, meu email, quero ler o sub-Blog :]

#]

Monique Premazzi disse...

nique.poynter@hotmail.com

P.S: Depois volto pra fazer um comentário descente -q
LOVE U <3

Graziely Marchese disse...

NOSSA UAU! Nem tenho palavras depois dessa texto. E como você disse a música ajudou mesmo. Fiquei emocionadissima e me deu uma vontade enorme de ter vivido açguma coisa assim. Realmente lindo. Parabéns

Gabriela Marques disse...

Simplesmente lindo *.*
Deve ser reconfortante saber que mesmo depois do fim ainda ficaremos vivivos nas lembranças de quem amamos. Que a morte pode nos levar, mas não levará nosso espirito por completo.

Lindo demais o texto. Beijos!

Obs: Aquele texto é de minha autoria sim, fiquei feliz por ter gostado.

barbarapiracelli disse...

nossa que texto lindo. Parabéns pelas palavras bem intencionadas. Estou te seguindo! Retribui ? ok beeijos

Jeniffer Yara disse...

Texto lindo! Uma pessoa se despedindo da pessoa amada é tão triste não?!Mas é bonito de ver que após anos ainda sobrevive as lembranças e as promessas. *.*

Lindo!
Bjs!

Thais Cristina, disse...

nossa, estou toda arrepiada. adoro a forma com que você descreve cada mínimo detalhe, sem tirar a sutileza das palavras.

Bjinhos, obrigada pelos comentários lá no blog!

Isadora Beatriz disse...

Adorei o texto! E boa sorte ;)

http://confissoesameianoite.blogspot.com/

Sara Roosevelt disse...

gostei muito, como sempre!
e adorei ler sobre vc no último post!
Mas que menina cheia de talentos :)

Lury Sampaio disse...

Noossa, que triste, mas que lindo!
Queria um amor assim que dure para sempre dentro de um dos dois...
beijos.

Larissa disse...

Eu acho tão mais fácil fazer uma carta de despedida pra mulher do que pra homem. Não sei, talvez seja a maneira como gostaríamos que fôssemos tratadas: "é o fim, mas eu te amo!"
Seria melhor nunca ter um fim.

Um beijo.

PS: DR é discutindo relação. HAHA :D E não precisa ter vergonha de perguntar.

Raíssa Santos disse...

NOOOOOOOOSSA, eu fiquei tipo assim, de boa aberta K "Porque somos aquele casal em Copacabana, o motivo do pintor criar a tela num poente colorido de vermelho e rosa." Nossa, bateu lá no fundinho x; Pessoas importantes que passam pela nossa vida, sempre deixam marcas.

Ah amor, melhor coisa é namorar o melhor amigo. Porque ele nos conhece bem melhor, não é?
beijos

Jaqueline Jesus disse...

meu Deeeus :O
que texto liiindo *-*
Li ouvindo a música e até chorei :$
Espero de coração que vc ganhe. Pude sentir toda a intensidade do momento que vc descreveu... A morte é algo tão triste.
Essa música ta me deprimindo, rs, mas é linda *-*

beijoos