Olhos brancos

Novela para a Gincana do Dia do Escritor de UOAT, tema da semana: Terror. Minha primeira vez escrevendo alguma coisa macabra, então não acho que tenha ficado bom. Não ligo também se não quiserem ler, porque ficou um pouco grande.



A noite era tão negra que eu não sabia se já era hora de levantar. Minha cama estava fria e a insônia me mantia refém das vozes que me sondavam. Eu ouvia crianças sussurrando, com os mais diversos timbres. Eram apenas sussurros, frases que não estavam com as palavras propriamente ordenadas, então ficava difícil seguir algum conselho que elas me dessem. Sentei-me sobre a cama, ajeitando meu cabelo armado e esfregando os olhos com força.
Na ponta dos dedos vi um pó preto, como se tivesse manuseado carvão. O coração disparou com as dúvidas de como havia me sujado. Não, calma, Liz, é só seu deliniador. A respiração se aliviou, mas o medo ainda estava dentro de mim. Parei para ouvir com atenção as vozes. Elas tinham que me dizer alguma coisa inteligível, algo que acabasse com minha tensão. Ou então, que a aumentasse, mas que cessasse a tormenta do obscuro.
Com um pouco mais de esforço, consegui distinguir algumas das muitas palavras que me eram faladas: "Rua 24 de Maio" ... "4:15 da noite" ... "589" ... "Sozinha" ... Meus pêlos da nuca se arrepiaram. Senti um tranco elétrico passar por toda a espinha, como se tivesse levado um choque. Meus pés tocaram o chão sem a minha permissão e começaram a andar. Peguei meu sobre-tudo preto, sendo comandada por algo que não era eu. Calcei o Escarpin preto e comecei a caminhar até a porta. Meus passos eram vagarosos, sentia-me um zumbi de marionete, sendo conduzida até a rua, onde o sereno era quase que uma nevasca.
Eu estava sozinha no frio, ainda sendo comandada por alguma coisa horrível. O grito me vinha à garganta mas de lá não passava, como se minha boca tivesse sido costurada. Meu olhos tentavam explorar meu redor, mas também não se mexiam. A única coisa que acontecia comigo era minha caminhada à um lugar macabro que eu nem conhecia. Os passos ainda eram lentos, como que arrastados.
Depois de meia hora caminhando, já sentia meus pés formando calos do calçado. Tentei tirá-los, mas ainda estava sendo controlada. Após alguns minutos, cheguei à Rua 15 de Maio. No casébre que marcava o número 589, havia um relógio antigo, daqueles que gritam a cada 30 minutos. Era exatamente 4:15 da noite. O medo me tomou por inteiro. O frio era intenso, mesmo não ventando. Tentei girar a cabeça para procurar alguém na outra calçada, esquecendo-me que não podia mais fazer nada. Por que não tomei os calmantes da noite? Poderia estar dormindo ao invés de caminhar até esse lugar assustador e esperar que algo horrível aconteça.
De repente, tudo parou. O frio foi embora, a dor nos pés passou. Não havia barulho algum na rua toda, nem mesmo a água que corria até o bueiro. Ouvi passos de botinas até o lugar onde eu estava. O medo era cada vez maior, eu sentia vontade de gritar, os passos não paravam de ficar mais altos. Com o barulho do caminhar das botas, passei a ouvir a respiração do que chegava mais perto de mim.
O terror já me fazia transpirar, os olhos eram grandes de agonia. E tudo isso eu tinha que sentir sem mexer um músculo. Estava travada como numa paralisia.
Os passos então pararam. Senti o hálito dele bem ao meu lado. O seu calor estava a menos de um palmo de minha orelha, o que me fazia tremer. Ouvi um barulho de couro em atrito. Ele deve estar com uma jaqueta de couro. Depois de uma fração de segundo, sua mão estava em minha nuca. Ele era quente, uma surpresa para mim. Sua mão ali me deu um desejo monstruoso de virar para beijá-lo, e eu me sentia assustada por querer aquilo. Ele devia ser horrível, se é que era um humano como eu.
-Eu não teria tanta certeza de que era humana, Liz. - A voz dele penetrou meu ouvido. - Afinal, que tipo de humano é feito de marionete e guiado até uma rua deserta na perigosa São Paulo no alto na noite?
Sua voz rouca me fazia querer correr dalí. O estranho era que ele ainda tinha a palma na minha nuca, e saía algo daqueles dedos que me deixava louca para vê-lo. Era excitante me ver naquela posição com um desconhecido, mas eu estava apavorada. Talvez o pavor me desse mais vontade ainda de ver quem ele era.
Então, como num segundo tranco elétrico, ganhei minha movimentação novamente. O frio voltou, assim como os calos no pé, mas eu conseguia me mexer como quisesse. Continuei, porém, parada, de pé, com um homem me tocando, apenas eu e ele numa rua escura. Comecei a girar lentamente o pescoço para ver seus olhos. Os segundos eram enormes, mas eu continuava com o ritmo lento.
Quando meu olhar finalmente encontrou o dele, todo o medo de antes voltou numa maré destruidora. Seus olhos eram completamente brancos, como os de um monstro, e minha boca se abriu em desespero. Tentei me afastar, empurrando-me com toda a força que tinha para trás. Sua mão deixou de esquentar minha nuca, e de sua boca eu vi sair sangue. Ele riu irônico, se deliciando com meu medo.
Eu comecei a correr, e assim foi por uns 20 metros. Mas caí com o o salto enroscado na calçada e feri os joelhos. Ele ainda não tinha se mexido. Eu podia vê-lo gargalhar. Sua aparência era humana, mas seus olhos me faziam querer correr. Ele começou a andar em minha direção, as botinas pretas em baixo e seu cabelo liso, preto e comprido em cima. Me pegou pela gola do sobre-tudo e novamente me senti atraída por ele. Queria poder empurrá-lo e fugir daquele lugar, mas ele me mantia presa em suas mãos.
-Eu... preciso... solta... solta! - Eu falava enforcada pela gola que ele segurava. Sentia que estava ficando difícil de respirar e engolir, mas ainda desejava estar com aquele monstro. O pavor já havia borrado o que restara da minha maquiagem, e eu podia sentir as lágrimas pretas salgarem minha língua.
A outra mão dele, a livre, foi de encontro a minha cintura. Caminhou por minhas costas até que eu estivesse envolta nele como uma amante. Seu hálito quente novamente, seus olhos brancos me apavorando, e o jeito que ele me segurava me fazendo desejá-lo. Vi seus lábios se mexerem ao tentar formar uma frase:
-Você é mesmo uma pu... - Então dei-lhe um soco no maxilar. A pálpebra se fechou, mas ele ainda me envolvia em seus braços quentes. As lágrimas não paravam de escorrer, eu sentia agonia, medo, desejo, pânico, era tudo de uma vez me fazendo querer morrer.
Então ele cravou os dentes na minha nuca, me fazendo uma careta de adrenalina. Eu sentia que estava bêbada, agoniada. O sangue saia de dentro de mim e fluía até seu corpo sedutor. Eu estava à mil por hora, as luzes da rua se movimentando aceleradamente. Gritei o mais alto que pude.
E meu sinal sumiu no ar, andou para longe e jamais encontrou ouvidos. Apenas caí sobre a calçada e desejei, pela última vez, estar em casa.
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3 escafandrinhos disseram algo:

Lury Sampaio disse...

Obrigado pelo carinho linda! Eu me pergunto o mesmo como consegues fazer contos tão profundos que nos despertam tais sentimentos impressos neles, sempre muito bons! Amei esse de terror.
beijos.

Brunno Lopez disse...

Soberbo com doses gradativas de envolvimento gratuito.

Não esperaria menos.

Anônimo disse...

Vampiros... mas o que posso fazer?! eles estao na moda mesmo...
HAEUHAEUHAue

mas ignorando este fato, achei muito engraçado como sua mente funciona escrevendo terror" .. aheuhaeuhae

comento o resto pessoalmente, nao vo aumenta seu ibope nem vo abaixa ele na frente de ninguem =p..

precisa dize quem eh ???

beeijo =*