"We've got time in our hands"

Então estou sentada numa cadeira com o computador na frente de meus olhos e uma fotografia na palma de minhas mãos. Em seu verso, a imagem traz o breve lembrete: "Neise, uma lembrança de papai e mamãe". Fascinação por fotografia? Pelo tempo? Por poesia, tal com a graça de conseguir reunir tudo em palavras? Provavelmte é fascinação por sentimento.
Na fotografia, agora com um tom de sépia, estão meus bisavôs, de cabelos ainda castanhos, braços envonveldo-se por trás das cinturas, e sorrisos nos rostos. Época curiosa.
E ao mesmo tempo, estou escutando alguma coisa acústica, que no meio da letra diz: "Temos tempo nas mãos." E como temos.
E ao pensar sobre tempo, me vem a morte. Nos noticiários, não sinto pela perda de desconhecidos, mas sinto compaixão por aqueles que tiveram de ficar. Sofrendo.
E morte não é uma coisa sinistra? Uma pessoa simplesmente acaba. Ela deixa de existir fisicamente. Pronto. Acabou.
Não consigo me conformar. Minha prima morreu dois anos atrás, mas para mim está mais viva do que nunca. Tanto que em uma visita à sua mãe, quase que pergunto: "Mas aonde foi Thamara?". Engoli a frase, mas senti culpa.
E o Canedo? Estavam meus pais conversando sobre ele, até que mencionam que já se foi. Mas já? Não mais vive? Que absurdo! Que astúcia de ir embora sem avisar!
Mas uma coisa é verdade: não sinto que se foram realmente.
Primeiro, há o choque. Não acredito que morreu, parece que vai cair do andar de cima, gritando-me que era tudo brincadeira. E depois vem a depressão. Ou aceitação? E depois, no meu caso, há uma terceira fase: a dúvida.
Morreu? De verdade? Não vai voltar?
E eu sou tão jovem, não devia ficar enchendo a cabeça com isso. Mas já lhes disse que é inevitável, eu sou meio filosófica mesmo, e quero simplesmente deixar-me estar. E se não fosse assim, como conseguiria viver?
A cada vez que o ar adentra meu corpo, morro dois segundos. A cada vez que fecho um livro, sinto-me mais jovem do que era antes de abrí-lo, mas mais madura do que era antes de fechá-lo. Sentimentalismo, não?
Que nostalgia... Preciso parar com isso. E não é que vivo no passado, apenas gosto de pensar nele.
Leitor, você já teve a sensação de estar vivendo alguma coisa da qual sente que para sempre irá se lembrar? Estava eu saindo do elevador, caminhando de encontro a porta de casa, quando paro e penso: "iPod nas mãos, esse tênis colorido logo abaixo de mim, e meu caderno debaixo do braço. Como vou sentir falta disso..." Ser adolescente, aprender na pele, descobrir tudo por si só.
ÊEEEE idade bâua... Diz minha mãe.
Sim mãe, sentirei saudades. Não dos que já se foram, mas de mim mesma. Saudade dessa perspectiva jovial, da minha vontade de mudar a rotina, querer ser independente, e livre.
Saudades de tudo.

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