Meus avós, de novo


Sempre tive curiosidade de saber das origens de minha família. De que país cada um veio, seus nomes, profissões, dificuldades da época, movimentos rebeldes da época. Eu estudo tudo isso, mas nunca converso com uma testemunha daquele tempo, que viveu aquilo realmente, com seu corpo e espírito.

E como já estou conformada com essa idéia, me contento com as conversas que ainda posso ter com meus avós, sobre o que eles já viveram, e o que ainda lembram de seus pais, avós, bisavós.

Hoje foi um dia em que conversei bastante sobre isso, e fiquei sabendo um pouco mais sobre o passado da parte materna da minha família. Então vamos lá.

Eu nasci em Valinhos, mas só nasci mesmo. Praticamente na divisa de território. Depois voltei para casa, e fui criada a vida toda em Campinas. Minha mãe nasceu em Campinas também, embora tenha morado até o jardim de infãncia na Grande São Paulo. Minha avó nasceu em Campinas também, mas já morou em São Paulo, Macuco (sim, bem interior, bem mesmo), Campinas, e agora está em Hortolândia.

Mas isso é meio inútil de se dizer. O que (eu acho que) tem relevância mesmo, é o que ela me contou - minha avó, estou na casa dela, a Lourdes - hoje, alguns minutos atrás, enquanto tomávamos café da tarde.

Ela me contou da parte da família que ainda não conheci. A mãe dela era a "Vó Ana". Braba que só. Cozinhava horrores, muitas receitas que eu mesma faço são dela. Boleira nata. Mas como acabei de dizer: gênio forte, e muito braba. Depois vem a vó Dita. Dela não sei muito, mas foi casada com meu Tataravô, e teve e "Vó Nona", que era da Itália mesmo, trabalhava nas lavouras de lá. Da família Ferrari.

Quando penso no sobrenome (que à propósito, queria muito ter), lembro da minha amiga Amanda, que tem Ferrari no fim do nome também. Será que, em algum tempo híper distante, nossos tataratataratataratataravós se conheceram? Se juntaram? Porque uma famíla surge apenas uma vez. Não há como ter duas famílias originais com nomes iguais.

Bom, minha avó também falou um pouco da Nona. Ela também era meio zangada, rígida ao extremo, na verdade. Quando ficava fula, desenrolava palavrões em italiano desembestada. Ao invés de "venha comer", dizia "vem manjar"; no italiano mesmo, "mandiar". Dizia que caboclo não sabia fazer polenta, que só os italianos faziam direito.

Óh céus, queria eu ter aprendido a cozinhar um pouco com ela. Mas vai que ela me dava um toco, falava que eu não sabia fazer polenta...

Depois disso, preferi parar de perguntar. Ela não devia lembrar direito, e eu não iria conseguir guardar os nomes e características, de qualquer forma.

Mas adorei a conversa... E depois, quando o pessoal chegou para tomar café (em quando ela contava, estávamos apenas nós duas na cozinha), a gente riu muito. Minha vó faz umas pérolas em casa, que é impossível não rir...

Ela confunde as palavras difíceis, e os vizinhos são piores ainda... Um dia, veio uma vizinha pedir "pó rolae", o que "faz o bolo crescê". Outro dia minha avó chegou com uma vela tentanto ascendê-la na lanterna que meu vô estava segurando... Nossa, nisso eu já estava toda vermelha na mesa, com meu tio narrando de um jeito muito comédia... Ela queria ver o "Mandagastar", o filme dos bichinhos, fazer escova "pogressista", fritar o "burgo", comer "trunfa"...

Aah, é dessas coisas que eu vou falar para os meus filhos, quando eles me perguntarem dos meus avós, e pais, e bisavós...

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