30 dias para amar

A mulher olhou para o calendário e constatou que estava apenas um mês distante da data em que havia prometido deixar de viver.
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Passara a vida toda com seu mundo girando ao redor daquele homem. Aquele que, nesse momento, ela odiava. Mas não era o momento de mudar seu destino: ele já tinha sido prometido muito antes de sua raiva lhe preencher.
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Então era isso: trinta dias e algumas horas para dar fim à tudo isso. .
Não ligava para Deus. Sabia desde o início que não existia. Quanta bobagem...
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Então ouve o toque de seu celular: seu melhor amigo.
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-Vamo sair, estou com tempo livre e saudade. - a voz alegremente leve.
-No lugar de sempre?
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Sim, no lugar de sempre. Andou pelas calçadas com a fotografia do pequeno calendário perambulando pela cabeça. Dois minutos depois, já estavam sentados, conversando sobre a rotina, o tempo, as decepções de sempre. Até que, ao entrar no seu "terreno proibido" de conversas - a mulher não havia contado à ninguém sobre a promessa suicida - seu amigo achou oportuno compartilhar um de seus pensamentos:
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-Acho que se você pode ser feliz hoje, não tem sentido fazer coisas para te alegrar amanhã. Viver intensamente é a coisa mais maravilhosa que faço, desde que a frase me foi apresentada.
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Ela assentiu com a cabeça. Não iria discordar, de quaquer forma: ela tinha seus conflitos e não se sentia à vontade o suficiente para expressá-los.
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Porém, a bendita da frase não saía de sua cabeça: viver intensamente. Fazia sentido. Parecia insano, mas divertido. Estranho, mas possível.
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Então decidiu que era o que faria até os trinta dias terminarem.
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Fez aulas de culinária. Descobriu que era ótima boleira. Entrava em concursos e ocasionalmente conseguia boas posições entre os vencedores.
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Começou a andar de skate, coisa da qual morria de medo, e jurava de pé junto que nunca subiria naquilo. Bom, até o momento que descobiru que aquilo era bom, que lhe proporcionava momentos em que parecia estar mais perto de anjos, e mais perto da Adrenalina também.
Dançou na chuva no baile dos militares. Sentiu que o mundo estava lhe acolhendo excelentemente bem, que talvez aquele fosse seu modo de dizer adeus.
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E então, dois dias antes do dia prometido, encontrou seu amigo ao acaso na confeitaria, enquanto pegava algo para comer no expediente.
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A mulher não sabia se eram seus olhos, mas o amigo lhe parecia atraente de uma forma que nunca tinha percebido. Ela ficava voando naqueles olhos cinzas, delirando, delirando. Então ele a surpreendeu com uma pergunta pitoresca, e um tanto ordinária:
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-Fiquei sabendo que vai ter uma tempestade hoje. Não quer ir pra casa? As luzes vão se apagar em breve, de qualquer forma.
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Como ainda estava voando naqueles circulos perfeitos, disse que sim, o mais simpática que pôde, e lá foram eles dois para o apartamento dele. Rindo no caminho, beliscando o bolo que a mulher acabara de comprar, andando como dois adolescentes até o táxi.
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E quando chegaram ao seu quarto, desabaram juntos sobre a cama dele. A mulher adimirava a cor creme do teto, quando notou que o amigo segurava sua mão.
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Então eles se sentaram, e ficaram em silêncio por breves segundos, até que ela não aguentou mais segurar seus pensamentos e os disse em voz alta:
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-Eu vou falar tudo agora. E é bom que você esteja preparado, porque será surpreendente.
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-Sim, madame. Diga-me tudo - ele respondeu com seu jeito galanteador desajeitado. E prestativo.
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Então ela respirou fundo, prendendo a respiração que usaria na conversa mais importante e sincera de sua vida.
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-Prometi dois anos atrás que, se o Claudio não me pedisse em casamento, desistiria de tudo, e me mataria no segundo ano seguinte. Eu tinha o prazo de um ano e onze meses para que ele pedisse minha mão, e fui me desesperando a medida que via que ele nunca tomaria a atitude.
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O amigo calado, expressão indecifrável.
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-Então, ele não me pediu, e me conformei com a idéia de que não viveria mais. Mas no mesmo
dia nós saímos, e você disse aquilo de viver intensamente. Aquilo ficou na minha cabeça o coloquei em prática desde então. E estive indo bem, com a promessa firme. Mas hoje, na hora em que nos encontramos, eu vi o quanto você parecia bonito.
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"Enquanto ríamos na rua, eu ví o quanto sentirei sua falta, para onde quer que eu for quando partir daqui. O quanto seu abraço melhora tudo que estou sentindo.
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"E o quanto você é lindo, como sua mão é quente e macia, sua voz rouca e suave... se não fosse por você, meus últimos dias teríam sido miseráveis.
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Seu rosto agora parecia lisonjeado, sedento por mais.
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-E a única coisa que passa na minha cabeça desde vinte e oito dias atrás, é você. Quando estou do seu lado, parece que nunca senti nada por mais ninguém: apenas nós dois, e o meu amor por você. Eu tenho que dar um fim para tudo isso, e se você tiver alguma boa razão que me faça ficar ao invés de ir agora, é bom que diga, porque não hesitaria em te aceitar e ficar com você até o fim dos meus dias.
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O coração estava a mil, ela suava congelando, com lágrimas nos olhos, pasma com a gravidade de suas palavras.
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Então ele olho para baixo, depois para os lados, depois seus olhos encontraram os dela.
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-Eu realmente não sei, o porquê de você precisar estar à beira da morte para ver que pertencemos um ao outro. Eu sabia disso desde aquela sua obcessão por ele.
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"Clara, eu sempre estive com você dentro de mim..."
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Então voltaram a se deitar na cama dele; mas dessa vez, seus corpos se sobrecolocavam, abaixo da tempestade previda - ou causada? - pelo amigo.
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Uaaal, quanto texto. Será que ficou bom? Ficou meio amadorzinho... mas eu gostei. Gostei bastante. Tomara que alguém tenha paciência para ler tudo.

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