Tipos de miséria

Amanhã, ela começou a pensar, amanhã nessa hora, vou estar com uma taça de champanhe nas mãos, levantando-a para o alto, com todos os meus amigos do lado, comemorando o começo de mais um ano rumo ao fim da minha vida.

Ao mesmo tempo, passando perto de seu carro, viu crianças de rua. Tão pobres, e tristes, e sem esperança. Por que não conseguem ser feliz? Ela pensa. Mas a resposta chega quase de imediato: talvez não tenham muitos motivos. Porque aquela vida não é exatamente o que se espera conseguir ao longo da existência.

Você nasce, e de acordo com seus padrões de vida, tem mais ou menos oportunidades, e quando as aproveita, consegue entrar num caminho seguro que termina naquela grande palavrinha: sucesso.

Mas a garota não sabe definir o sucesso. Muito menos o seu oposto.

Aquilo na rua era comum demais para deixá-la impressionada. Afinal de contas, eram pessoas de rua, e como o próprio nome diz, pessoas que moram em lugares públicos, debaixo da vista de todos. E como o hábito foi mais rápido do que a surpresa, ela simplesmente voltou os olhos para o iPod, procurando algo mais divertido do que "Colbie Caillat".

Coitada dela, que não entendia a ingratidão da situação, o nível de diferença entre os dois grupos de corpos que por pouco não se encostaram.

E no dia seguinte, tudo correu bem: seu champanhe, suas músicas, seus amigos que pensavam igual à ela.

A única coisa que mudou foi sua resistência à reconhecimento de valores mais importantes do que seu mundo miserável: ficara mais forte.

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