Hor, Senhor das Letras. Agonia.

Eu juro que vai valer a pena ler a postagem inteira. Estou inspirada hoje, e queria postar uma coisa sobre o Michael Ende, aquele escritor alemão que escreveu "A História Sem Fim". Os textos a seguir foram extraídos do livro "Espelho no Espelho". Fantástico. Tanto que achei que deveria compartilhar. No pósfácio, há a seguinte informação: "[Espelho no Espelho,] onde numa espécie de labirinto[,] desenvolvem-se simultaneamente 30 narraivas, cujos jogos e combinações formam cenas de verdadeiro horror, solidão e medo."

Acho que os três últimos substantivos foram abordados na obra pelo autor pois foi na época em que seu pai falecera. Tanto que o livro foi dedicado à ele, Edgar Ende (hoje é o dia do Edgar =o)

Mas sem enrolação, Afinal, quero que leiam o capítulo todo. Então, aqui vai parte do primeiro capítulo de "Espelho no Espelho":


"Perdoe-me, eu não posso falar mais alto.
Eu não sei quando você vai ouvir, você, a quem me dirijo.
E será que vai me ouvir?
Meu nome é Hor.
Eu lhe rogo, coloque seu ouvido perto da minha boca, por mais longe que você esteja de mim, agora ou em qualquer momento. Caso contrário, não conseguirei me fazer entender por você. E mesmo que você consista em atender meu pedido, ainda assim muitas coisas não serão ditas e você as terá de completar por sua conta. Preciso da sua voz, sempre que a minha ficar presa na garganta."


Como o capítulo é grande, preferi mostar apenas a parte que desperta curiosidade. Achei um capítulo pequeno e bem interessante também. E vou passá-lo inteiro:


"Este senhor compõe-se apenas de letras. De muitas letras, entenda-se. De um número astronômico de letras; mas, mesmo assim, apenas letras.
Aqui está sua namorada. Ela é, como se vê, de carne e osso. E que carne e osso! É um prazer olhar para ela.. Imagine-se então como seria tocá-la!
Nesse momento eles vão juntos para o parque. No balanço do navio e na roda-gigante tudo ainda vai bem, Mas eles chegam então a um estande de tiro: é bem verdade que se trata de um estande de tiro bem esquisito.
"Experimente você mesmo!", está escrito em grandes letras na parte de cima. E bem embaixo podem-se ler as regras. São apenas três:

1.ª - Para cada tiro está garantido um acerto.
2.ª - Para cada acerto há um tiro grátis.
3.ª - O primeiro tiro é gratuito.

O senhor, com braço pousado na cadeira de sua namorada, examina atentamente a inscrição. O cavalheiro quer sair rapidamente, mas ela insiste em que ele aproveite a oferta lucrativa. Ela quer ver do que ele é capaz.
Mas o senhor não quer.
- Por que não, querido? Já fez isso?
Fazer isso significa que apessoa tem de atirar em um alvo bem estranho, ou seja: sem si mesma, o que significa no próprio reflexo em um espelho metálico. E o senhor de letras não se sente realmente capaz de se diferenciar de uma maneira tão arriscada assim da própria imagem refletida no espelho.
- Ou você atira - diz a amiga, que finalmente ficou furiosa - ou eu abandono você!
Ele balança a cabeça. E lá se vai ela com outro, com um açougueiro, que entende muito bem de carnes e ossos. O senhor fica parado, seguindo-a com a vista. Quando ela desaparece de seu campo de visão e aflição, ele desintegra-se pouco a pouco em uma pequena pilha de minúsculas e maiúsculas, que é pisoteada pela multidão.
Ele bem que poderia ter atirado, não é mesmo?"


Ambos os textos pedem bastante reflexão, e esta parte deixo com os leitores. Cada vez que os leio, mais uma interpretação surge, e mais em dúvida ainda eu fico. É bem notável os três substantivos do começo da postagem: "horror, solidão e medo". Tanto que posso encontrar os três reunidos em um só capítulo (esse último inteiro). Horror é o que o senhor das letras sente ao ver sua namorada ir embora. Solidão é o que se estabelece nele segundos antes de se desmanchar em letras amontoadas na grama, e medo, bem, medo está implícito, mas muito presente. Os textos trazem uma atmosfera pesada, e o medo está em todos os capítulos. Se pudesse, trocaria os três termos por apenas um: agonia.

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