Greg é fictício

Greg,

Como início, peço-lhe perdão pela simplicidade das palavras. Estive me emburrecendo esses dias, tudo para enteder melhor a forma como funciono. Diógenes disse-me que é difícil me ver falando abertamente sobre minha vida. O estranho é que, perto de meus amigos, sinto-me intensamente impulsionada ao desabafo; mas confesso que nunca cheguei a dizer o que realmente me preocupa.
Quer saber você, então, o que me preocupa? O realmente me faz tremer?
É saber que talvez um dia eu acorde e me recorde que o ontem foi a última vez que o sorriso dele para mim foi sincero. É saber que meu avô será internado essa semana, sendo que nem ao menos me abraçou apertado. Mas sorriu para mim o dia todo, um riso que é dois terços olhar e o restante coração. Disse-me com o orvalho das pálpelbras: te amo.
Preocupa-me perder quem amo por prepotência, pela minha mania de ser caridosa. Preocupa-me também, mesmo que eu negue se alguém vier perguntar, minha real reputação na sala de aula. Tiro notas boas, sou aluna média. Mas algo em mim faz aquelas garotas me quererem longe. Já chegaram a se unir para dar em cima do meu namorado, o mais lindo daquele lugar, para me infernizar.
Sabe o que é pior? Não sei o que fazer. O ciúme me deu calafrios, me deixou branca de ódio. Eu estava pronta para arrancar os cabelos dela. Mas não posso sujar as mãos. Nem a alma.
Tenho medo de não dar certo, de estar sendo algo comum. Quero fazer minha diferença porque sei que sou mais do que pensam que eu posso ser. Quero um dia ser entrevistada por um programa televisivo, já famosa por poesia, e ter a chance de instruir os jovens a não agir de má fé. Isso é deplorável, é miserável, é desumano. Parem com isso, suplico.
A mim só resta como vingança ser feliz.
Mas, Greg, isso ainda não é nada. Tem muita escuridão nesse peito, muita algazarra de palhaços mortos, muito sentimento despadronizado. O que Clarice Lispector me diria se lesse isso? Diógenes, o que você diz disso? Augusto, o que você diz disso? Letícia Gomes, o que você diz disso?
Nao sei, Greg, não sou alta o suficiente para me enxergar de cima. Talvez você possa falar.
Enquanto isso, aguardo, lendo na mureta uma crônica de Carpinejar.