Maçã do amor

Eu prefiro dor declarada ao sofrimento escondido. Sofrimento escondido mantém-se cutucando, fica zumbindo ao redor da orelha dizendo sem parar "estou aqui, estou aqui, estou vivo". Eventualmente mais alto, eventualmente controlado. Não é estável nem digno de confiança, mesmo que seu papel só esteja sendo seguido.

Fui hoje me vacinar daquelas doenças urbanas e fiquei perto de cair branca no chão. Depois de tirada a agulha, a mulher estancou o ponto de sangue com um esparadrapo que era pequeno até para um dedal. Senti água escorrendo pelo braço mas quando olhei era caramelo de maçã do amor. Falei que precisava colocar uma fita maior, e a moça demorando-se para pegá-la. O caramelo escorrendo, eu me contendo mentalmente.

Não aguentei e disse "Moça, pelo amor de Deus, não gosto de ver sangue." Eu podia ter virado a cabeça, mas é impossível não admirar uma cor de caramelo tão viva.

Por fim me livrou do desespero e o braço que agora uso para escrever está pesado. Não arde, mas fica fazendo barulhinho de dor. Vontade de estapear esse ombro.

Ele diz para mim: "Estou aqui, estou aqui, estou vivíssimo."

2 escafandrinhos disseram algo:

L.S. Alves disse...

Caramelo na veia! Nunca tinha pensado nessa hipótese. Gostei do texto.

Bia disse...

Caramelo, muito bem pensado Le!

Sim, sim, criatvissimo esse post!